Entre drones, artilharia e saudade: palmeirense relata rotina na linha de frente da guerra na Ucrânia
Aos 29 anos, Andrei Soeiro Martins descreve os riscos das missões, os longos deslocamentos em áreas de conflito e a distância do filho e da família que ficaram no Brasil
Publicado em 19/10/2026 às 13:07
Atualizado em 19/10/2026 às 13:58
Capa Entre drones, artilharia e saudade: palmeirense relata rotina na linha de frente da guerra na Ucrânia

Foto de Arquivo Pessoal / Rádio Palmeira

Os perigos da linha de frente na guerra entre Rússia e Ucrânia, as longas caminhadas até as posições militares e os períodos sem contato com a família fazem parte da rotina relatada pelo palmeirense Andrei Soeiro Martins, de 29 anos. Em entrevista à Rádio Palmeira, concedida ao repórter Sidi Farias, ele compartilhou experiências vividas no território ucraniano e falou sobre os desafios físicos e emocionais de atuar em uma zona de conflito.

Natural de Palmeira das Missões, Andrei estudou na Escola Erci Campos Vargas e concluiu os estudos na Escola Borges do Canto. Antes de viajar para a Ucrânia, trabalhou na construção civil no município e, posteriormente, na empresa Bruning Tecnometal, em Panambi.

O interesse em ir para a Ucrânia surgiu no início da invasão russa, em fevereiro de 2022. Segundo ele, naquele período, as oportunidades eram restritas a pessoas com experiência militar. Como não havia servido às Forças Armadas no Brasil, a possibilidade de atuar no país europeu representou a oportunidade de realizar um objetivo pessoal e, conforme seu relato, ajudar a população atingida pela guerra.

Da chegada à Ucrânia às primeiras missões

Andrei conta que deixou o Brasil em março no aeroporto Salgado filho em Porto Alegre, passando por Lisboa Portugal antes de seguir para Varsóvia, na Polônia. De lá, viajou de ônibus até Lviv, na Ucrânia, onde permaneceu por aproximadamente uma semana para providenciar a documentação necessária.

Depois, foi encaminhado a outra base, onde formalizou o contrato e assinou os documentos exigidos. Na sequência, seguiu para uma cidade próxima à linha de frente e passou por cerca de 40 dias de treinamento antes de iniciar as missões.

Conforme relatou à Rádio Palmeira, sua função é na infantaria, na área de defesa territorial. O trabalho envolve deslocamentos, ocupação de posições estratégicas e permanência em locais sujeitos a ataques.

Drones e artilharia aumentam os riscos

Na avaliação de Andrei, a guerra reúne combates tradicionais, com trincheiras e enfrentamentos em áreas de mata e se estende a áreas urbanas também, e o uso crescente de tecnologias, especialmente drones. Segundo ele, esses equipamentos se tornaram uma das principais ameaças aos militares em campo.

Um dos episódios mais tensos que relatou foi uma caminhada de aproximadamente 27 quilômetros até uma posição da unidade. Durante o deslocamento, o grupo enfrentou o risco de contato com forças inimigas, a presença de drones e a queda de projéteis de artilharia nas proximidades.

“Foi uma longa caminhada com risco de contato com o inimigo, drones e artilharia caindo próximo a nós. Foram os quilômetros mais tensos e perigosos da minha vida”, relatou.

Ele também explicou que alguns deslocamentos exigem caminhadas de 20 a 25 quilômetros, pois veículos blindados não conseguem chegar a todos os locais onde a infantaria precisa atuar. Além do esforço físico, os militares precisam manter a atenção diante da possibilidade de ataques e da presença de minas terrestres.

Durante a entrevista, Andrei mencionou ainda a morte de quatro brasileiros que, segundo seu relato, foram atingidos alguns quilômetros à frente de sua posição naquele período. O episódio reforçou a percepção dos riscos enfrentados por quem atua na linha de frente.

Missões podem durar até 70 dias

Outro desafio é o tempo de permanência nas posições militares. Andrei afirma que as missões podem durar 30 ou 40 dias, mas há casos em que militares permanecem por até 70 dias, dependendo das condições operacionais e da organização dos revezamentos.

Segundo ele, as equipes trabalham com integrantes de diferentes unidades e nacionalidades, incluindo ucranianos e colombianos.

As dificuldades também aparecem quando um militar é ferido em uma área de acesso complicado. Andrei relatou situações em que pessoas sofreram lesões graves e precisaram esperar vários dias até que as condições permitissem a retirada.

Conforme sua experiência, uma evacuação pode levar de sete a dez dias, dependendo da situação no terreno e da possibilidade de acesso seguro. A espera por atendimento e remoção é mais um dos desafios enfrentados em áreas hostis.

“Não é fácil, mas a gente, com a graça de Deus, segue em frente”, afirmou.

Distância da família impõe desafios emocionais

Além dos riscos físicos, o afastamento dos familiares é uma das partes mais difíceis da rotina. Andrei explica que a comunicação precisa ser limitada durante as missões, tanto pelas condições de conectividade quanto pelas exigências de segurança.

Em determinados períodos, pode ficar um mês ou até 40 dias sem contato direto com a família. Segundo ele, o comando recebe informações sobre a situação dos integrantes da unidade, permitindo que os familiares sejam informados sobre as condições dos militares. Ainda assim, quem está na linha de frente nem sempre consegue saber como estão os parentes no Brasil.

Fora dos períodos mais críticos, ele consegue conversar com a mãe e o filho por meio do WhatsApp e fazer ligações quando há condições de conexão.

Andrei afirma que, até o momento da entrevista, não havia passado por uma situação mais grave nas missões de que participou, apesar dos perigos e da imprevisibilidade do conflito.

Militares de diferentes países atuam juntos

A estrutura em que Andrei trabalha é organizada em brigadas e batalhões. Ele informou integrar uma brigada sob comando majoritariamente ucraniano.

A unidade reúne militares de diferentes nacionalidades, entre brasileiros, colombianos, georgianos e alemães, além de voluntários de outros países. As diferenças de idioma exigem adaptação no cotidiano, e aplicativos de tradução são utilizados para facilitar a comunicação.

Apesar das barreiras linguísticas e culturais, os integrantes precisam coordenar suas ações para cumprir as tarefas e atuar nas condições impostas pela guerra.

Saudade dos momentos simples de Palmeira das Missões

Quando fala sobre o Brasil, Andrei destaca a falta que sente do filho, da mãe, dos amigos e das atividades comuns que faziam parte de sua vida antes da viagem.

Tomar chimarrão, reunir a família para um churrasco, sair com os amigos e passear com o filho no parque estão entre as lembranças que mais o acompanham.

Ao imaginar um domingo em Palmeira das Missões, ele descreve um dia dedicado à convivência familiar: caminhar pelo calçadão, levar o filho ao parque para alimentar os peixes, tomar um milk-shake e terminar a tarde observando os aviões no aeroporto do município.

São momentos cotidianos que, longe de casa, passaram a representar o desejo de reencontro e tranquilidade.

Esperança de voltar ao Brasil

Ao final da entrevista, Andrei agradeceu às pessoas que acompanham sua trajetória e torcem por seu retorno. A principal expectativa, segundo ele, é voltar em segurança a Palmeira das Missões e reencontrar a família, especialmente o filho.

Enquanto enfrenta os riscos das missões e os períodos prolongados de afastamento, mantém a esperança de retornar ao Brasil e retomar a convivência com as pessoas queridas.

O relato concedido à Rádio Palmeira mostra uma dimensão pessoal da guerra: além dos confrontos e das dificuldades operacionais, há a distância de casa e a saudade de uma vida interrompida pelo conflito.

Fonte: Sid Farias - Jornalismo RP

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