Foto de DCS/PCRS
Os números da Secretaria da Segurança Pública do Rio Grande do Sul acendem um alerta: enquanto diversos índices criminais apresentaram redução nos últimos anos, os casos de feminicídio seguem em crescimento no Estado. Em 2024, foram registrados 73 crimes; já em 2025, o número subiu para 80. Apenas nas primeiras semanas do novo ano, novas ocorrências já mobilizam forças de segurança e operações de fiscalização de medidas protetivas.
Restando 10 dias para o final, o mês de janeiro já registra sete casos de mulheres que foram assassinadas por questão de gênero no Rio Grande do Sul. O caso mais recente ocorreu no município de Muitos Capões, onde Uliana Teresinha Fagundes, de 59 anos, natural de Braga, foi morta nesta terça-feira, 20. A vítima foi atingida por ao menos quatro disparos de arma de fogo no interior da residência onde morava com o ex-companheiro.
Os outros casos de 2026 ocorreram em Guaíba, Canguçu, Santa Rosa, Sapucaia do Sul e dois em Porto Alegre. Os números mostram que, em média, uma mulher foi vítima de feminicídio a cada 68 horas no Estado. E todos os casos deste ano têm uma coisa em comum: os principais suspeitos eram companheiros ou ex-companheiros das vítimas, tendo como principal motivação apurada a não aceitação do fim do relacionamento.
Em entrevista ao Complexo Luz e Alegria, a delegada titular da Delegacia de Polícia Regional do Interior (14ª DPRI), Aline Dequi Palma, destacou que o feminicídio é um dos crimes mais complexos de prevenir, justamente por ocorrer, na maioria das vezes, dentro das residências e longe do olhar do poder público.
– É um crime passional, que muitas vezes acontece sem qualquer registro anterior. As vítimas acabam não denunciando as primeiras agressões, e a violência evolui até chegar ao pior desfecho –, explicou.
Segundo a delegada, a violência doméstica costuma seguir uma escalada. “Ela começa com xingamentos, ameaças, violência psicológica, depois passa para agressões físicas e, em alguns casos, culmina no feminicídio. Por isso, é fundamental que a mulher registre as primeiras ocorrências e solicite medidas protetivas”, ressaltou.
Apesar do cenário preocupante no Estado, a delegada destacou que, até o momento, não há registro de feminicídios em 2026 na região atendida pela delegacia. Ainda assim, ela reforça que fatores sociais contribuem para o aumento dos casos, especialmente em períodos como férias, festas de fim de ano e maior consumo de álcool. “As pessoas ficam mais tempo juntas, há mais confraternizações e, infelizmente, o álcool potencializa conflitos e a perda de controle”, afirmou.
Salas das Margaridas e acolhimento às vítimas
Um dos principais avanços no enfrentamento à violência doméstica é a implantação das Salas das Margaridas. Na região, já são seis espaços em funcionamento, incluindo Frederico Westphalen e Seberi, inaugurados em 2025.
– Essas salas existem para mostrar às mulheres que a Polícia Civil está preparada para acolher, ouvir e proteger. É um ambiente mais humano, reservado e seguro para que elas se sintam à vontade para denunciar –, explicou a delegada.
Ela afirma que a procura tem sido positiva. “As mulheres estão entendendo que têm esse espaço à disposição. Nosso objetivo é dar o melhor atendimento possível, porque só assim conseguimos agir antes que a violência se agrave”, destacou.
Tornozeleiras eletrônicas e resposta rápida
Outra ferramenta importante é o monitoramento de agressores por tornozeleira eletrônica, medida determinada pelo Judiciário. Atualmente, cerca de 16 dispositivos estão ativos na região.
– O agressor passa a ser monitorado, com distância mínima da vítima. Em caso de descumprimento, a Brigada Militar é acionada e a Polícia Civil representa pela prisão preventiva –, explicou Aline.
Ela citou um caso recente em Seberi, no qual o descumprimento da medida resultou na prisão imediata do agressor. “É um sistema que tem funcionado bem, porque protege a vítima e evita novos crimes”, avaliou.

Operação “Ano Novo, Vida Nova” combate violência doméstica e familiar contra a mulher - Foto: DCS/PCRS
2025 registra recorde em feminicídio com 4 mulheres mortas por dia no país
O número de feminicídios bateu recorde no Brasil em 2025: foram 1.470 casos de janeiro a dezembro, conforme dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública. O total supera os 1.464 registros de 2024, a maior marca até então. Os registros oficiais de feminicídios apontam para quatro mulheres mortas por dia no ano passado.
Os números devem crescer mais, com os dados de dezembro do Estado de São Paulo, que ainda não foram atualizados na base do governo federal. As estatísticas são computadas pelos governos estaduais e enviadas pelo governo federal, que as divulga. Mesmo sem os números do último mês de 2025, São Paulo é o estado com mais casos, com 233. Minas Gerais (139) e Rio de Janeiro (104) aparecem na sequência.
Alta de 316% em uma década
A tipificação feminicídio, quando uma mulher é morta pelo fato de ser mulher, foi criada em 2015. Naquele ano, ocorreram 535 mortes de mulheres nessa circunstância. Houve crescimento de 316% em 10 anos ao comparar com os números de 2025. A alta é constante desde que o crime passou a ser registrado dos homicídios.
Ao todo, 13.448 mulheres foram mortas em dez anos pelo fato de serem mulheres, o que representa uma média de 1.345 crimes por ano. São Paulo (1.774), Minas Gerais (1.641) e Rio Grande do Sul (1.019) lideram as estatísticas.
Denúncia salva vidas
A delegada Aline Palma fez um apelo direto às mulheres, familiares e à comunidade. “Esse ditado de que em briga de marido e mulher não se mete a colher não cabe mais. Denunciar é salvar vidas. Tudo que chega até nós é verificado. A violência nunca para sozinha, ela só aumenta. Por isso, é preciso coragem para romper o silêncio”, afirmou.
Ela lembrou que as denúncias podem ser feitas presencialmente em qualquer delegacia, pela Delegacia Online da Polícia Civil (DOL), pelo Disque 180 ou Disque 100.
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