O centro da fé cristã NÃO é o demônio: entrevista com um EXORCISTA
Uma reflexão com o Padre Adrián Cortéz, licenciado em Filosofia, mestre em Teologia Sistemática e pós-graduado em Angelologia e Demonologia. É também membro da AIE (Associação Internacional de Exorcistas) e Moderador da Comunidade Católica Legati Christi
Publicado em 03/11/2026 às 09:12
Atualizado em 03/11/2026 às 09:21
Capa O centro da fé cristã NÃO é o demônio: entrevista com um EXORCISTA

O ministério do exorcismo ocupa um lugar particular na missão pastoral da Igreja Católica. Cercado por curiosidade, medo e interpretações equivocadas, esse serviço exige fé, prudência, discernimento e caridade. Para compreender melhor sua natureza e finalidade, vamos trazer na sequência uma entrevista com o Padre Adrián Cortéz, que apresenta importantes reflexões sobre a dimensão espiritual, eclesial e pastoral desse ministério.

O que é o ministério do exorcismo?
O exorcismo é um ministério específico da Igreja, fundamentado na autoridade de Jesus Cristo e exercido em nome da própria Igreja. Sua finalidade é suplicar a Deus a libertação de uma pessoa que, após cuidadoso discernimento, seja considerada vítima de uma ação extraordinária do maligno.

Entretanto, entendo que a missão do exorcista vai muito além da celebração de um rito. É, sobretudo, um ministério de escuta, acolhimento e misericórdia. Muitas pessoas que procuram esse atendimento carregam histórias de sofrimento, medo e angústia. Por isso, acredito que, antes de qualquer procedimento, é necessário acolher cada pessoa em sua dignidade, respeitando sua história e suas necessidades.

O sacerdote exorcista é superior aos demais padres?
Não, de maneira alguma. O sacerdote exorcista não é superior aos demais padres, não possui poderes mágicos, capacidades de adivinhação ou conhecimentos sobrenaturais por mérito pessoal. Ele é um sacerdote como os outros, que recebeu do bispo uma missão específica dentro da vida da Igreja.

Não considero essa missão uma condição de superioridade, mas um encargo ministerial. Sua autoridade decorre da missão que lhe foi confiada pela Igreja, em nome de Cristo. O próprio Código de Direito Canônico, no cânon 1172, estabelece que somente um sacerdote que tenha recebido licença especial e expressa do ordinário local pode realizar legitimamente exorcismos. Por isso, vejo essa missão como uma grande responsabilidade, que exige preparação e busca constante de uma vida de oração.

Qual é a importância do discernimento nesse ministério?
Considero o discernimento uma das maiores responsabilidades do exorcista. É necessário analisar com muita prudência as situações que nos são apresentadas, porque nem todo sofrimento, comportamento incomum ou crise emocional deve ser interpretado como manifestação demoníaca.

Existem condições físicas, psicológicas e psiquiátricas que necessitam de acompanhamento especializado. Por isso, considero fundamental que sejam levadas em conta as explicações médicas e psicológicas, contando, quando necessário, com a colaboração de profissionais da saúde.

Na tradição católica, distinguimos a tentação, que faz parte da experiência espiritual humana, das chamadas ações extraordinárias do maligno, entre as quais se encontra a possessão demoníaca. É importante compreender que nenhum comportamento isolado permite estabelecer esse diagnóstico. O discernimento exige tempo, prudência, responsabilidade e, acima de tudo, respeito pela dignidade humana.

Como a Igreja compreende o exorcismo como oração?
A Igreja possui um ritual litúrgico próprio para essa finalidade, chamado Ritual de Exorcismos e Outras Súplicas. O exorcismo maior é celebrado conforme as normas da Igreja e mediante a autorização necessária.

Compreendo o exorcismo como uma oração de súplica a Deus, na qual invocamos sua ação e a autoridade de Jesus Cristo. Não se trata de magia, espetáculo ou demonstração de poder pessoal do sacerdote. O verdadeiro protagonista é Cristo, e nós, sacerdotes exorcistas, atuamos como ministros da Igreja.

Considero a vivência constante dos sacramentos da Igreja, sobretudo a Eucaristia e a Confissão, assim como as práticas de devoção, elementos essenciais da vida espiritual católica. Entre essas práticas, destaco o santo Rosário, a veneração à Santa Cruz e a intercessão dos santos. São expressões de fé e comunhão com Deus, e não fórmulas mágicas ou garantias automáticas de resultados extraordinários.

Qual deve ser a postura do exorcista diante das pessoas que procuram ajuda?
Acredito que, antes de qualquer coisa, precisamos acolher quem sofre. Nem todas as pessoas que nos procuram precisam necessariamente passar por um exorcismo. Muitas vezes, elas necessitam de acompanhamento espiritual, apoio familiar ou assistência médica e psicológica.

Entendo que o atendimento pastoral deve ser marcado pela discrição, pela confidencialidade e pelo respeito. Nenhum sofrimento justifica violência, humilhação ou exposição pública. Da mesma forma, jamais devemos recomendar o abandono de tratamentos médicos. A oração e o acompanhamento espiritual podem caminhar juntos com os cuidados profissionais.

Na minha compreensão, o verdadeiro serviço pastoral não aumenta o medo de quem sofre. Pelo contrário, oferece presença, orientação e esperança. Por trás de cada relato existe uma pessoa, com uma história, suas feridas e necessidades, que merece ser ouvida, respeitada e acompanhada.

Qual é, afinal, a missão do exorcismo na Igreja?
O centro da fé cristã não é o demônio, mas Jesus Cristo. A Igreja não anuncia o medo, mas a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte. Por isso, o ministério do exorcismo deve apontar sempre para essa esperança e ajudar as pessoas a reencontrarem a confiança em Deus.

O sacerdote exorcista não é um personagem extraordinário, mas um padre que recebeu uma missão específica e que deve exercê-la com prudência e caridade.
Compreender o exorcismo como ministério de escuta e misericórdia significa recordar que, antes de qualquer situação extraordinária, existe um ser humano que precisa ser respeitado, acolhido e acompanhado.

Mais do que alimentar o medo ou a curiosidade pelo extraordinário, procuro compreender esse ministério como um serviço de esperança. Porque, no centro de tudo, está Jesus Cristo, fonte de libertação, misericórdia e vida.

Entrevista concedida e realizada por Denise de Souza Toledo, leiga, casada, pedagoga e pós-graduada em Teologia Sistemática.
 

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