"Até hoje estamos sem chão", diz filha de produtor que perdeu 48 vacas em três dias no Norte do RS
Suspeita de intoxicação causou prejuízo de cerca de R$ 600 mil para a família de Novo Xingu
Publicado em 22/01/2026 às 10:49
Atualizado em 22/01/2026 às 11:04
Capa "Até hoje estamos sem chão", diz filha de produtor que perdeu 48 vacas em três dias no Norte do RS

Foto de Ana Paula Witter/Arquivo pessoal

Uma família de agricultores de Novo Xingu, município com cerca de 1,6 mil habitantes no Norte do Rio Grande do Sul, perdeu 48 vacas leiteiras em um intervalo de três dias, entre 2 e 4 de janeiro, em uma propriedade localizada na Linha Cotia. A principal suspeita é de intoxicação dos animais por excesso de nitrito, hipótese levantada por médicos veterinários que atenderam a ocorrência. O prejuízo é estimado em aproximadamente R$ 600 mil.

A família, que há cerca de 30 anos atua na produção leiteira — além de suinocultura e cultivo de soja —, teve a renda mensal drasticamente afetada. Antes do episódio, a propriedade registrava faturamento bruto entre R$ 80 mil e R$ 100 mil por mês.

Segundo Ana Paula Witter, filha do proprietário Vanderlei Witter, de 44 anos, o caso começou de forma repentina, ainda de madrugada. “Meu pai encontrou quatro vacas mortas por volta das 5h30, quando foi buscar o rebanho para a ordenha. Em poucos minutos, outras começaram a apresentar sintomas graves, sem conseguir levantar”, relatou.

Ana Paula, engenheira agrônoma, mestre e doutoranda em proteção de plantas, estava na propriedade no momento do ocorrido e ajudou no atendimento emergencial aos animais.

– Foi tudo muito rápido. A gente medicava e, em questão de minutos, as vacas morriam. No início da manhã já tínhamos 11 animais mortos. Ao longo do dia e da madrugada seguinte, as perdas só aumentaram –, contou.

Suspeita de intoxicação por nitrito

Veterinários da região e da cooperativa foram acionados e trabalharam de forma intensiva para tentar salvar o rebanho. Inicialmente, houve suspeita de intoxicação por ureia, mas, com a evolução do quadro e os achados clínicos, a hipótese perdeu força.

– Pela necrópsia, as extremidades dos animais estavam arroxeadas — língua, vulva e região dos olhos. Os veterinários explicaram que isso é compatível com asfixia, o que reforça a suspeita de intoxicação por nitrito –, explicou Ana Paula.

De acordo com ela, a condição climática pode ter contribuído para o problema. “A suspeita é que, pela falta de sol, a planta não conseguiu metabolizar corretamente e acumulou nitrito nas folhas. No rúmen, esse composto acaba formando substâncias altamente tóxicas, levando o animal à morte”, disse.

Suspeita é de intoxicação por excesso de nitrito — Foto: Divulgação/Secretaria de Agricultura Novo Xingu
Suspeita é de intoxicação por excesso de nitrito — Foto: Divulgação/Secretaria de Agricultura Novo Xingu

Exames laboratoriais e coletas de sangue foram realizados, mas, até o momento, os laudos oficiais seguem inconclusivos. “Ainda temos muitas perguntas sem resposta. O laudo definitivo não saiu, e isso aumenta a nossa angústia”, afirmou.

O impacto emocional também foi severo para a família. “Eu nunca tinha visto meu pai perder o chão. Minha mãe e minha irmã ficaram muito abaladas. Até hoje a gente está tentando assimilar tudo o que aconteceu”, desabafou Ana Paula.

Atualmente, a propriedade não possui mais vacas em lactação. Restaram apenas novilhas e vacas secas, além de um único animal que pariu após o episódio. “Antes, a estrevaria estava cheia. Hoje, minha mãe tira leite de uma vaca só. É um choque muito grande”, relatou.

Diante da tragédia, uma corrente de solidariedade se formou na região. Campanhas de doação via Pix, arrecadação de animais, insumos e produtos para rifas estão ajudando a família a recomeçar.

– Já temos cerca de 24 animais doados, entre bezerras e vacas, que devem chegar nos próximos dias. Todo o valor arrecadado será usado para recompor o rebanho e retomar a atividade –, destacou Ana Paula.

Apesar das perdas, ela afirma que a família tenta seguir em frente. “É um recomeço muito difícil, mas temos fé em Deus e estamos sentindo o apoio da comunidade, da prefeitura e de tantas pessoas. Isso nos dá força para continuar”, concluiu.

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Almir Felin