"Não existe solução milagrosa para o emagrecimento saudável"
Uso indiscriminado de canetas emagrecedoras preocupa especialistas em saúde pública
Publicado em 27/01/2026 às 11:05
Capa "Não existe solução milagrosa para o emagrecimento saudável"

O uso das chamadas canetas emagrecedoras, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, virou motivo de alerta entre profissionais da saúde pública. Em entrevista à Rádio Luz e Alegria, o médico e especialista em saúde pública, doutor Paulo Savaris, classificou o consumo indiscriminado desses medicamentos como um “modismo perigoso”, impulsionado pela busca por resultados rápidos e sem a devida orientação médica.

Segundo Savaris, os medicamentos à base de semaglutida e outros agonistas do GLP-1 foram desenvolvidos originalmente para o tratamento do diabetes tipo 2 e para casos específicos de obesidade, não para uso estético.

– Essas canetas induzem a saciedade, retardam o esvaziamento gástrico e reduzem o apetite. Funcionam, sim, para emagrecer, mas não são inofensivas e jamais deveriam ser usadas sem critérios médicos –, enfatizou.

O médico relatou casos atendidos em consultório que demonstram o uso irresponsável do produto. “Atendi recentemente um paciente com 130 quilos que aplicou doses acima do recomendado porque tinha um casamento em 30 dias. Ele ainda dividiu a dose com a esposa. Isso mostra o nível de banalização a que chegamos”, alertou.

Contrabando e risco à saúde

Outro ponto destacado por Savaris é o crescimento do contrabando desses medicamentos, principalmente vindos do Paraguai. De acordo com ele, além de ilegais, muitos desses produtos chegam ao Brasil sem qualquer controle de temperatura ou procedência.

– Esses medicamentos precisam ser mantidos entre 2 e 8 graus. Já vimos apreensões em que as canetas eram transportadas dentro de pneus de automóveis. Ninguém sabe o que realmente está sendo aplicado –, afirmou.

O especialista lembrou que a Receita Federal estima que o contrabando dessas substâncias movimente cerca de R$ 600 milhões por ano. “São produtos vendidos a preços muito abaixo do mercado. Isso levanta suspeitas de adulteração, diluição do princípio ativo ou até contaminação”, completou.

Efeitos colaterais graves

Entre os riscos associados ao uso inadequado das canetas emagrecedoras, Savaris citou pancreatite, câncer de tireoide, problemas renais e hepáticos, formação de cálculos na vesícula, crises alérgicas severas e até casos de Síndrome de Guillain-Barré.

– Estamos falando de uma condição neurológica grave, que pode levar à perda de movimentos. Já há relatos de pacientes internados em UTI após o uso de medicamentos clandestinos –, destacou.

O médico também alertou para o chamado “efeito rebote”. “A pessoa perde peso rápido, mas ao interromper o uso, o organismo reage, o apetite volta com mais força e o ganho de peso pode ser ainda maior”, explicou.

Emagrecimento exige mudança de hábitos

Para Savaris, não existe solução milagrosa para o emagrecimento saudável. “Não existe a pílula da longa vida. Isso é uma invenção do mercado. O que existe é regra alimentar, atividade física, sono adequado e controle do estresse”, ressaltou.

Ele defendeu que o uso das canetas só deve ocorrer após exames completos e com acompanhamento médico contínuo. “É preciso avaliar tireoide, fígado, rins e acompanhar mensalmente. Qualquer alteração exige a suspensão do medicamento”, pontuou.

Por fim, o especialista reforçou que a prevenção ainda é o melhor caminho. “Caminhar, beber água, consumir alimentos naturais e evitar ultraprocessados são atitudes simples e acessíveis. Saúde pública se constrói com orientação, não com modismos perigosos”, concluiu.

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