O setor leiteiro do Rio Grande do Sul atravessa um dos períodos mais desafiadores de sua história recente, marcado por um desequilíbrio financeiro que ameaça a continuidade de milhares de famílias no campo. Em análise sobre o cenário atual, o presidente da Associação de Criadores de Gado Holandês do Rio Grande do Sul (Gadolando), Marcos Tang, destaca que a atividade enfrenta uma crise de preços que não cobrem os custos básicos de produção. Enquanto o custo médio para produzir um litro de leite oscila entre R$ 2,20 e R$ 2,30, muitos produtores estão recebendo valores que variam de R$ 1,80 a R$ 2,00.
Segundo Tang, essa realidade é agravada por um histórico de cinco anos de instabilidades climáticas, que intercalaram secas severas e enchentes, elevando o endividamento e dificultando o acesso a créditos como o Pronaf.
– O produtor de leite vive uma dinâmica de mercado atípica, na qual não vende sua safra, mas a entrega diariamente sem saber o preço final que receberá. Essa falta de poder de barganha, somada à natureza perecível do produto, coloca o setor em uma posição de extrema vulnerabilidade diante da indústria e do varejo –, afirma..
Desequilíbrio de mercado e o impacto das importações
Um dos pontos mais críticos levantados pela liderança da Gadolando é o avanço das importações de leite em pó, especialmente de países do Mercosul. Mesmo com alertas de dumping e a necessidade de medidas protetivas, o volume de leite importado registrou alta de 10% em janeiro de 2026.
Tang questiona a falta de reciprocidade nas exigências de qualidade e a ausência de uma política de exportação robusta por parte da indústria nacional.
– Enquanto o produtor foi obrigado a se adaptar a rigorosas normas de sanidade e resfriamento, a cadeia industrial não se capacitou adequadamente para abrir novos mercados internacionais, mantendo o excedente gaúcho — que representa 70% da produção estadual — refém do mercado interno e da concorrência externa desleal –, disse Tang.
Consequências socioeconômicas e a evasão do meio rural
A crise reflete-se diretamente na demografia do campo. Desde 2010, o número de produtores de leite no Rio Grande do Sul despencou de 100 mil para apenas 29 mil. Marcos alerta que essa evasão não é apenas uma questão de eficiência técnica, mas um problema socioeconômico grave que afeta a circulação de riquezas em pequenos municípios. "O chamado cheque do leite é responsável por movimentar o comércio local, desde mercados até postos de combustíveis, e sua escassez gera um efeito cascata de empobrecimento regional", destaca.
Para Tang, a manutenção da atividade leiteira deve ser tratada como uma questão de soberania nacional. Ele defende que a dependência de importações pode deixar o consumidor brasileiro desprotegido em casos de crises nos países vizinhos.
A solução, segundo a entidade, passa por uma vontade política firme que inclua a imposição de cotas ou taxas para a importação e uma revisão da carga tributária sobre insumos, visando tornar o produtor brasileiro competitivo. Sem uma remuneração justa, o setor corre o risco de ver a extinção de matrizes genéticas construídas por gerações e o abandono definitivo da sucessão familiar nas propriedades rurais.
Produtores de leite relatam queda nos preços do produto no RS. Na sua opinião, qual seria a solução para a crise do setor leiteiro?
Publicado por
