A empatia é um dos exercícios mais nobres do espírito humano, mas também um dos mais raros de serem praticados em sua plenitude. Ela exige que ultrapassemos as barreiras da nossa bolha cultural para enxergar o valor Sagrado da vivência do outro. Infelizmente, o episódio protagonizado pela delegação brasileira ao desembarcar na Austrália expôs uma fratura incômoda — e profundamente dolorosa — da nossa sociedade moderna: a seletividade do respeito.
Recebidos pelo povo ancestral Wulgurukaba com a tradicional "cerimônia da fumaça" — um ritual de acolhimento, proteção e votos de boa sorte aos visitantes —, o que se viu em parte dos presentes não foi a reverência devida a quem oferece o seu melhor, mas o riso de canto de boca, o olhar de desdém e a risada debochada que apequena quem a profere.
O fato ganha contornos ainda mais dramáticos pelo perfil de quem reage assim. Muitos ali representam a superação de marcadores sociais severos: a origem periférica, a escassez de recursos na infância, o preconceito racial e a permanente necessidade de provar o seu valor em uma sociedade desigual. São vozes que, com justiça, cobram do mundo igualdade, proteção, respeito e empatia quando estão no papel de vítimas.
No entanto, ao pisar no território alheio e se deparar com uma manifestação cultural diversa, a chave muda. Quem tanto sofreu com a ignorância alheia vestiu, ainda que por breves minutos, o figurino do algoz. A risada debochada no hotel é prima-irmã do olhar enviesado que esses mesmos indivíduos condenam quando direcionado a eles.
Este não é um debate sobre religião, rituais ou crenças. É um debate sobre ética elementar e humanidade. Respeito não é um terno que vestimos apenas quando nos convém ou quando a câmera do tribunal moral está apontada para nós. Respeito é uma postura estrutural: a capacidade de honrar o sagrado e a tradição do outro simplesmente porque é a expressão legítima de um povo que nos abriu a porta de sua casa.
Para além do aprendizado técnico ou esportivo, a maturidade de um indivíduo mede-se por aquilo que busco chamar de Saber Portátil — o conjunto de conhecimentos, vivências práticas e repertório humano que acumulamos ao longo da vida e carregamos conosco para qualquer lugar, servindo como bússola ética em qualquer contexto. O Saber Portátil exige que a bagagem de dores enfrentadas no passado se transforme em sensibilidade no presente, e nunca em licença para desdenhar do próximo.
É muito confortável exigir empatia do mundo quando a dor dói na nossa pele. O verdadeiro teste de caráter, contudo, acontece no momento oposto: quando ocupamos a posição de poder, de visibilidade ou de privilégio e nos deparamos com o diferente. Se no papel de vítimas pedimos acolhimento, no papel de espectadores temos o dever sagrado de oferecer reverência. Quem não aprende a respeitar o ritual do outro perde a legitimidade de exigir que o seu mundo seja respeitado.
Respeito recebido é muito bom, mas dar o respeito: é sinal de grandeza.
Abraço!!!!!
