Pesquisadores treinam resgate de DNA e transplante de plantas nativas para reflorestar áreas afetadas pelas enchentes
Reflora integra governo, academia e setor privado para recuperar flora atingida por enchentes e preservar diversidade genética
Publicado em 22/08/2025 às 17:00
Atualizado em 22/08/2025 às 10:40
Capa Pesquisadores treinam resgate de DNA e transplante de plantas nativas para reflorestar áreas afetadas pelas enchentes

Foto de Fernando Dias/Ascom Seapi

O projeto Reflora iniciou, nesta quinta-feira, 21, o treinamento prático de coleta e enxertia de material genético de plantas nativas no Centro Estadual de Diagnóstico e Pesquisa Florestal (Ceflor), em Santa Maria, vinculado a Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi). A ação, que reuniu 28 pesquisadores e técnicos, integra a estratégia de recomposição das áreas afetadas pelas enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul. O projeto busca, ainda, preservar a diversidade genética de espécies nativas e acelerar o processo de reflorestamento.

A técnica aplicada envolve quatro etapas: coleta de material genético de plantas saudáveis, conexão de dois ramos ou galhos (enxertia), indução ao florescimento precoce e plantio das mudas no meio ambiente. O processo encurta significativamente o tempo de restauração dos ecossistemas — de 20 a 30 anos para um período estimado entre 5 e 8 anos. Além disso, possibilita preservar o DNA de espécies ameaçadas e ampliar a variabilidade genética, considerada essencial para a resiliência das florestas.

– Trata-se de uma iniciativa inédita no Rio Grande do Sul. Ao contrário da seleção de melhores exemplares, usada na produção de madeira e na criação animal, por exemplo, aqui o objetivo é ampliar a diversidade genética, tanto de mudas quanto de sementes –, explica Jackson Brilhante, coordenador do projeto pela Seapi e responsável pelo Plano ABC+ RS. Ele acrescenta que a diversidade genética aumenta a capacidade de adaptação das espécies e pode gerar benefícios ecológicos e econômicos, como o povoamento de pomares e o cultivo de árvores frutíferas em áreas reflorestadas.

O Reflora é coordenado pelas secretarias da Agricultura e do Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema), com participação da CMPC e da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii). Também integram o projeto a Universidade Federal de Viçosa (UFV), a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), a Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Processo aposta na diversidade genética

O coordenador operacional do projeto pela UFV, Diego Balestrin, destaca que o trabalho de campo exige rigor científico e precisão na execução. Além de detalhar os objetivos do projeto, enfatiza que o material genético é coletado em plantas matrizes, identificado com códigos pelas universidades para garantir rastreabilidade e armazenado em câmara úmida.

As amostras são transportadas em caixas térmicas com gelo, a fim de preservar a qualidade, até chegarem aos viveiros, onde ocorre a enxertia e o florescimento. Balestrin ressalta que o projeto tem essas prioridades iniciais, mas pode desenvolver outros desdobramentos durante sua implementação.

Em Santa Maria, foram coletadas amostras de louro-pardo, cedro, ipê-roxo, cerejeira-do-mato, entre outras espécies. Na sequência, realizou-se a fusão dos tecidos no Ceflor, permitindo a circulação de seiva entre as duas partes da planta. “O objetivo é evitar a coleta repetida de árvores semelhantes, ampliando a variabilidade genética e reduzindo o risco de endogamia — como primo casando com primo, que tem maior chance de gerar problema genético”, exemplifica Balestrin.

Outro aspecto relevante na coleta é a idade dos galhos. “Quanto mais alto um ramo está na árvore, mais adulto ele é”, observa Guilherme Bravim, integrante da equipe técnica da UFV. “O projeto foi criado devido ao risco de morte e extinção de árvores após a tragédia em Brumadinho, em 2019. Algo muito semelhante ocorreu no RS em 2024, com a enchente histórica”, acrescenta. Após essas etapas, as plantas permanecem no viveiro por cerca de seis meses até o florescimento.

O mesmo treinamento foi realizado na última terça-feira, no Centro de Pesquisas e Conservação da Natureza Pró-Mata, em São Francisco de Paula. O plano de ação prevê o plantio de mais de seis mil mudas de 30 espécies florestais nativas, cultivadas a partir de técnicas de preservação genética.

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Almir Felin