Terras raras: RS pode ganhar espaço sem depender da mineração
Especialista em energia e transição energética, Eric Daza, afirma que o futuro da cadeia das terras raras está na indústria, na tecnologia e na capacidade de inovação, e não apenas na exploração mineral
Publicado em 26/05/2026 às 17:00
Capa Terras raras: RS pode ganhar espaço sem depender da mineração

O avanço da disputa global por terras raras e minerais estratégicos abriu espaço para que o Rio Grande do Sul participe de uma das cadeias mais valiosas da nova economia mundial — mesmo sem possuir uma grande mina. A avaliação é do especialista em energia e mudanças climáticas Eric Daza.

O debate sobre terras raras e minerais estratégicos ganhou força nos últimos meses, impulsionado pela corrida global por tecnologias ligadas à transição energética, eletrificação e à indústria de alto desempenho. Segundo Daza, o principal erro do debate público atual é associar o tema exclusivamente à mineração. “A mina é apenas o começo da cadeia. O verdadeiro valor está na capacidade industrial, tecnológica e de engenharia para transformar esses minerais em produtos de alto desempenho”, afirma.

As chamadas “terras raras” são um grupo de 17 elementos químicos utilizados na fabricação de motores elétricos, turbinas eólicas, robôs, equipamentos médicos, eletrônicos e sistemas de defesa. Apesar do nome, esses elementos não são exatamente raros na natureza. O desafio está no processamento industrial e no refino, etapas hoje dominadas majoritariamente pela China.

– O mundo disputa hoje não apenas quem possui reservas minerais, mas quem consegue processar, transformar e fabricar componentes avançados. A China lidera porque construiu, durante décadas, capacidade industrial, química e tecnológica –, explica. Atualmente, o país concentra a maior parte da capacidade global de processamento de terras raras, etapa considerada estratégica por governos dos Estados Unidos e da União Europeia.

Daza destaca que o Brasil começa a estruturar políticas públicas e mecanismos financeiros voltados aos minerais estratégicos. Recentemente, o BNDES e a Finep selecionaram dezenas de projetos ligados ao setor, incluindo iniciativas voltadas às terras raras. Além disso, a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos avança no Congresso Nacional.

Na avaliação do especialista, o Rio Grande do Sul já reúne ativos relevantes para participar dessa nova cadeia produtiva, como indústria metalmecânica, polo químico, centros de pesquisa e universidades com tradição em engenharia, química e ciência dos materiais. “O estado já está inserido nessa cadeia pela demanda. A expansão da energia eólica, do hidrogênio verde e da eletrificação da indústria automotiva aumenta a necessidade de motores, componentes eletrônicos e materiais avançados. Isso pode se transformar em oportunidade industrial”, avalia.

Ele também cita pesquisas acadêmicas conduzidas em regiões como Caçapava do Sul, onde pesquisadores analisam o potencial geológico ligado às terras raras. Porém, ressalta que apostar toda a estratégia estadual apenas na possibilidade de uma futura jazida seria um erro.

“Não se trata de ser contra a mineração. Trata-se de entender que o futuro dessa cadeia será decidido muito mais nos laboratórios, nas fábricas e na engenharia do que apenas no subsolo”, afirma.

Para Daza, o Rio Grande do Sul precisa aproveitar o momento atual para construir uma estratégia industrial conectada à transição energética global. “O debate deixou de ser apenas ambiental ou mineral. Hoje envolve soberania industrial, defesa e segurança energética”.

“A pergunta certa não é se o estado terá uma mina. A pergunta certa é como o Rio Grande do Sul pode participar dos elos da cadeia onde está o maior valor agregado”, conclui.

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