Falar sobre morte é uma tarefa difícil, especialmente na infância. Muitas vezes, ficamos sem reação e não sabemos como tratar a perda junto às crianças. Pensando nisso, a psicóloga do Hospital São Vicente de Paulo, Gisele Dala Lana, escreveu um artigo com dicas de como agir neste momento.
Abordando a morte com as crianças: como conversar sobre um tema tão sensível?
Na semana passada, uma pessoa conhecida, procurou-me para pedir ajuda em como lidar com a seguinte situação: ela tem um peixe e ele estava doente. Então, ela me perguntou: “E se o peixe morrer, devo ou não contar para as crianças?” Sim, ela tem crianças em casa e preocupa-se com como elas lidariam com essa situação. Ela teme que fiquem tristes e necessitem enfrentar o tema da finitude, não apenas do peixe, obviamente, mas pensando que nós e as pessoas que amamos podemos morrer. Ela disse-me que a veterinária sugeriu que poderia comprar um peixe igual, colocar outro no lugar e não falar nada. Ou tentar dar uma medicação para o peixe e ver se ele se recupera.
O peixe tem um nome e ele é único. Se optar por comprar outro peixe, será outro peixe, pode até ser parecido e ter o mesmo nome, mas não será o mesmo. Portanto, disse a ela que penso que devemos falar para as crianças a verdade, dizer que o peixe está doente, e irão tratá-lo e cuidá-lo, na tentativa de que ele se recupere. E caso o peixe não sobreviva, teremos que contar a verdade e ajudá-los a lidar com a perda. Pois o fato de colocar outro peixe no lugar poderia parecer mais prático num primeiro momento. No entanto, seria uma desconsideração com as crianças, estaríamos tratando-as como se elas não tivessem inteligência e condições psíquicas para lidar com a morte. Uma semana depois, ela contou-me que uma pessoa muito próxima e querida pela família morreu inesperadamente. Alguém que tinha um importante vínculo afetivo com eles e sobre o qual não tinham nenhuma notícia que isso pudesse ocorrer.
Compartilho essa situação para pensarmos em como enfrentamos a morte e como inserimos nossas crianças nesta temática. Há uma ideia de proteger as crianças, de privá-las da tristeza e do sofrimento. Na situação do peixe, até seria possível substituí-lo por outro e não falar sobre o assunto. No entanto, em outras situações não há como reparar desta maneira.
Cabe a nós pensar qual a melhor maneira de abordar a morte com as crianças: quais palavras vamos usar, como adaptaremos a linguagem para que seja acessível a elas e o que diremos. O importante é dar espaço para que a criança fale e faça perguntas sobre o assunto. Muitas vezes, elas se sentem à vontade para abordar esses temas por meio das suas brincadeiras, suas produções, e seus desenhos.
Falar sobre a morte é um assunto frequentemente adiado e deixado de fora das conversas familiares. No entanto, em minha prática hospitalar, com frequência recebo questões relacionadas a como abordar o adoecimento e a morte com a criança, incluindo o que dizer e se a criança deve visitar o familiar no hospital. Não há regras definidas sobre como fazer isso, pois temos que considerar a singularidade, os recursos internos e a rede de apoio que cada criança tem. Dessa forma, vamos construindo uma maneira de inserir as crianças neste tema sensível. O importante é que sejamos suporte para ajudá-las a transitar por esses territórios difíceis e dolorosos; o essencial é estar junto com elas.
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