O próximo treinador da seleção brasileira tem que ser brasileiro ou estrangeiro?
Publicado em 29/12/2022 às 16:46h
Capa O próximo treinador da seleção brasileira tem que ser brasileiro ou estrangeiro?

Após o fracasso brasileiro na Copa do Mundo do Catar o assunto mais comentado no momento é de quem será o próximo treinador da nossa seleção, um brasileiro ou estrangeiro. Apesar de não estarmos no topo do senário futebolístico ainda somos admirados por ainda estarmos à frente em títulos mundiais e trazer alguém de fora acaba gerando muita discussão.

Como torcedores analisamos nomes, clubes que trabalharam, etc. Como profissional trabalhando com futebol e futsal posso falar que existem muitas outras informações importantes para que essa peça fundamental se encaixe num processo muito maior que é a seleção nacional. Trazer Guardiola ou Felipão é trazer os trabalhos deles e não apenas o nome.

Precisamos saber que cada treinador tem o seu “modelo de jogo” podendo ser semelhante ou não aos de outros, mas não igual. Esse modelo vai das ideias do treinador, dos treinos realizados para atingi-las e do comando que este terá do grupo para que eles comprem essa forma de atuar. Então, quando uma instituição contrata um treinador, está contratando uma forma específica de trabalhar, e isso pode gerar conflitos entre a identidade da instituição e a forma de trabalho quando divergentes. Exemplificando, uma equipe que propõe o jogo e contrata um treinador de uma mentalidade mais reativa, certamente encontrará problemas com esta forma de jogar.

Vamos pensar num treinador vitorioso em clubes, que o seu trabalho é de uma forma muito intensa e específica pelas suas características de jogo, muitas vezes, para aplicar sua forma de jogar demandará tempo de trabalho, podendo ter alguns percalços no início até que os jogadores estejam aptos técnica, tática, física e psicologicamente para executar seus princípios de forma efetiva. Num clube ele terá muitos treinos consecutivos, meses de treinamento até que consiga ajustar sua forma, nas seleções o tempo de preparação é muito menor e espaçado, ou este profissional tem uma grande capacidade de adaptação às situações novas ou possivelmente fracassará tentando de uma forma rígida aplicar sua metodologia.

Conhecer um pouco sobre o perfil de treinadores é algo que a minha função exigiu muito nesses quase 20 anos trabalhando com esporte competitivo, futebol e futsal (mais de 30 treinadores e todos com suas peculiaridades). Preciso buscar entender não apenas a metodologia e o modelo de jogo do treinador, mas também a forma como ele lida com todas as questões pertinentes não só a equipe, mas também ao clube. Enquanto preparador físico sou um auxiliar do treinador e preciso saber a forma de trabalho e de como administra as situações cotidianas para, através de meu trabalho potencializar suas virtudes e buscar complementar nos aspectos que podem ser melhorados.

Por isso digo que todo o treinador tem seus pontos fortes e fracos, uns possuem um trabalho de campo melhor, outros uma leitura tática fantástica, outros comando de grupos entre tantas outras características possíveis. Os melhores treinadores são os que possuem mais pontos positivos, além de estudiosos e flexíveis de acordo com as situações encontradas (característica do clube, qualidade de jogadores), pois futebol é muito dinâmico e quanto menos flexível o trabalho maior são as chances de fracasso quando encontrarem situações diferentes das que estão ambientados.

Alguém pode falar, mas professor, isso é besteira, pois temos os melhores craques do mundo e o treinador não fará grande diferença, será? Primeiro temos bem poucos craques se analisarmos a paixão que temos pelo futebol e o número de praticantes aqui comparados com outros países. Se pegarmos a melhor orquestra do mundo e colocar um mal regente, ela até poderá fazer um grande espetáculo, porém muito abaixo do seu potencial. Assim é o futebol, as peças precisam estar encaixadas e atuar como um mecanismo homogêneo de acordo com a proposta do treinador direcionando todos para a mesma direção.
Portanto, a nacionalidade ou nome do próximo treinador não tem importância, mas sim a capacidade de trabalhar na especificidade da seleção (diferente dos clubes), flexibilidade para se adaptar as realidades encontradas, mas com um modelo de jogo bem definido e que se adapte ao nosso futebol e nossos atletas (sendo ele brasileiro ou não).

Abraço e um feliz 2023 para todos!!!!