O MITO DA BALANÇA: POR QUE "COMER POUCO" PODE ESTAR ENGORDANDO O ATLETA?
Artigo de Pedro Francke
Publicado em 18/05/2026 às 13:47h
Capa O MITO DA BALANÇA: POR QUE "COMER POUCO" PODE ESTAR ENGORDANDO O ATLETA?

No mundo do futebol e do futsal, ainda ouvimos muito a frase: "Para emagrecer, tem que fechar a boca". Mas, na rotina de quem busca o alto rendimento, essa matemática simplista pode ser o caminho mais curto para o fracasso. Na minha caminhada entre a base e o profissional, percebo um padrão perigoso: atletas que pulam refeições, treinam em jejum e restringem severamente a ingestão calórica, mas não conseguem baixar o percentual de gordura e, pior, perdem performance.

Por que isso acontece? O corpo humano não é uma calculadora simples; ele é uma ferramenta biológica inteligente, adaptável e que responde a estímulos de sobrevivência.

Quando um atleta submete o corpo a treinos intensos sem fornecer combustível em intervalos regulares, o organismo entra em estado de alerta. Para o corpo, isso não é "dieta", é uma agressão. Esse estresse desnecessário dispara o cortisol, que sinaliza para o metabolismo reduzir a marcha para economizar energia.

O resultado é uma autossabotagem biológica: o corpo passa a "economizar" gordura (sua reserva de segurança) e a consumir o que é mais caro para ele manter: a massa muscular. No fim das contas, o jogador perde peso na balança, mas fica mais fraco, lento e com o corpo "mole". Ele perde o motor (músculo) e guarda o peso morto (gordura).

Outro ponto fundamental que observo é a falta de diversidade. Quem faz poucas refeições acaba caindo na monotonia. O almoço e o jantar costumam ser repetitivos, privando o corpo de micronutrientes essenciais. O atleta que fraciona o dia em seis refeições consegue inserir uma gama muito maior de nutrientes — frutas, fibras e diferentes proteínas — que funcionam como o "óleo" que lubrifica a engrenagem do metabolismo e auxilia na recuperação celular.

Comer mais vezes ao longo do dia evita que o atleta chegue às grandes refeições com uma fome desesperadora. Quando você se senta para jantar após horas de privação, a tendência é escolher alimentos pesados e comer além da conta, gerando um pico de insulina que favorece o acúmulo de gordura. O fracionamento mantém o nível de energia estável e a carga inflamatória sob controle, permitindo que o corpo foque na reconstrução dos tecidos e não apenas em "sobreviver" ao dia de treino.

Precisamos entender que a nutrição deve servir ao desenvolvimento humano e à especificidade do jogo. Um lateral, que percorre longas distâncias em alta intensidade, tem uma demanda de glicogênio diferente de um goleiro. Tratar todos pela mesma "tabela de gaveta" é ignorar a individualidade biológica.

A nutrição estratégica é uma forma de blindagem: um corpo bem alimentado suporta melhor a carga de treino e recupera-se mais rápido de microlesões. O segredo para a performance não é comer menos, é comer com inteligência. Se você quer um corpo pronto para o jogo, entenda: o alimento é seu combustível e seu principal aliado na busca pela longevidade esportiva.

O jogo cobra profundidade, inclusive no prato. Abraço!!!!!