A Contribuição dos Lanceiros Negros na Revolução Farroupilha - 24 
Coluna de Samba Sané
Publicado em 23/02/2023 às 14:58h
Capa A Contribuição dos Lanceiros Negros na Revolução Farroupilha - 24 

Prezados leitores deste nosso prestigiado jornal, como é de conhecimento de todos, no mês de setembro de cada ano os Gaúchos comemoram a revolução Farroupilha, considerado o maior conflito armado ocorrido em território brasileiro entre os anos de 1835 a 1845.

Esta revolução teve uma participação fundamental de um grupo de pessoas que, na época, jamais imaginariam que seriam tão importantes no conflito, tanto no desenrolar quanto na conclusão. São os lanceiros negros, agrupamento do exército farroupilha formado por escravos convocados para lutar ao lado dos revoltosos, tendo desempenhado um importante papel durante os 10 anos da Revolução Farroupilha. Dada a essa contribuição tão marcante, trouxemos aqui e nas próximas colunas alguns destaques dessa contribuição.

(...) Em termos de considerações finais, importa salientar que tudo o foi exposto nesta coluna, sobejamente documentado, nos mostra, em primeiro lugar, a enorme contribuição dos Lanceiros Negros – e dos negros em geral – à luta farroupilha. Contribuição que não se limitou à sua participação na resistência armada, mas que também se expressou nas mais variadas atividades produtivas e administrativas. Pode-se afirmar, sem medo de errar, que na ausência dessa contribuição, a República não resistiria por tantos anos ao domínio do Império.

Por outra parte, os fatos históricos nos indicam quão distante da realidade está a historiografia tradicional – laudatória dos “centauros (brancos) dos pampas” – que, ao mesmo tempo que “esquece” a decisiva participação dos negros na luta farroupilha, idealiza o espírito “libertário” e “emancipador” dos grandes fazendeiros que hegemonizaram a luta pela Federação e pela República na então Província de São Pedro, ignorando suas contradições frente à questão servil e negando episódios como a traição de Porongos.

Da mesma forma, a investigação nos mostra a insuficiência de certas interpretações superficiais – que muitas vezes beiram o panfletarismo – incapazes de compreender o caráter historicamente progressista da luta pela República e pela Federação, e contra o Império escravista centralista. Caráter progressista que explica a forte adesão à luta farroupilha de escravos, negros libertos, mestiços, índios e “pobres do campo”.Tais análises, de caráter anacrônico, além de não perceberem as profundas contradições entre os líderes farroupilhas, reduzem a questão unicamente à direção dessa luta pelas oligarquias rurais gaúchas, desconhecendo o momento e as condições históricas em que ela se deu, que inviabilizavam uma hegemonia dos setores populares. 

Seria o mesmo que negar o caráter progressista da luta pela independência das colônias inglesas da América do Norte, por ela ter sido dirigida por grandes proprietários de terras e pela incipiente burguesia norte-americana. Ou negar o caráter progressista da revolução francesa porque ela foi hegemonizada pelo “Terceiro Estado”, ou seja, pela nascente burguesia francesa. (...).