Recentemente, a mídia esportiva brasileira voltou seus olhos para um desafio que vai além das quatro linhas: a rotina dos atletas muçulmanos que atuam no país durante o Ramadã. Este é o nono mês do calendário islâmico, um período sagrado onde os praticantes realizam um jejum rigoroso — incluindo a privação de água — do nascer ao pôr do sol, visando o fortalecimento espiritual, a caridade e a autodisciplina. Com o crescimento de jogadores estrangeiros no nosso mercado e a maior visibilidade de brasileiros convertidos, o debate sobre como essa privação pode "atrapalhar" o desempenho físico tomou conta das mesas redondas. Mas, afinal, estamos diante de um problema fisiológico ou de uma oportunidade de gestão humana?
No futebol do Oriente Médio, onde vivi, o mundo para. Na Arábia Saudita, os treinos migram para a noite e a rotina social se curva ao período sagrado. Mas no Brasil, a realidade é outra: o atleta muçulmano praticante é, muitas vezes, o único do elenco a seguir o jejum. Aqui, o treino não muda de hora, o sol não perdoa e o calendário é implacável.
Como equilibrar a convicção individual com uma rotina coletiva que exige 100% de intensidade? Se o clube não adapta o horário, cabe a nós, profissionais, adaptarmos a estratégia de sobrevivência atlética.
Sem a adaptação da rotina do clube, o atleta precisa ser um relógio suíço. O compromisso começa na primeira oração, o Fajr (ao alvorecer). É o momento do Suhoor, a última refeição antes do início do jejum.
Nesta fase, a nutrição é estratégica: focar em alimentos de baixíssimo índice glicêmico e proteínas de lenta absorção. O objetivo é criar uma "liberação prolongada" de energia para suportar o desgaste físico que virá horas depois. É um exercício de disciplina extrema: acordar, alimentar o espírito, nutrir o corpo e preparar-se para o embate.
Quando o volume de treino segue o padrão normal, mas o atleta está em jejum seco, o risco de superaquecimento e perda de massa muscular é real. Para evitar esses problemas podemos utilizar algumas ações práticas:
- Termorregulação Externa: Uso do resfriamento externo com toalhas geladas e gelo na nuca durante as pausas para baixar a temperatura interna.
- Bochecho de Carboidratos: Técnica para enganar os receptores cerebrais de fadiga, dando um "fôlego" mental momentâneo (o atleta bochecha e descarta o líquido).
- Monitoramento Bioquímico: Acompanhamento de peso e marcadores como a Ureia para evitar o catabolismo.
Estas estratégias não são engessadas. A ciência nos dá o norte, mas a individualidade do atleta dita o ajuste fino. O plano deve sofrer mudanças constantes para atender às necessidades específicas do jogador ou para potencializar sua performance de outras formas.
Muitas vezes, esses compromissos de fé são questionados por quem olha apenas para o gráfico de rendimento. O jogador sabe do risco físico. Mas o ponto fundamental que minha vivência árabe consolidou é que, ao cumprir o que acredita, o fortalecimento mental e o comprimento das responsabilidades espirituais do atleta é tão expressivo que ele compensa o déficit biológico.
Unir a religiosidade do jogador à ciência da fisiologia é o que garante que ele continue decidindo jogos sem abrir mão de seus valores. O futebol é um idioma universal, mas ele só é bem falado quando entendemos o coração de quem joga. No fim, a força que vem de dentro é o que realmente define quem suporta o calor da batalha.
Abraço!!!!
