Crianças não são adultos em miniatura: a ciência por trás do treino
Artigo de Pedro Francke
Publicado em 16/02/2026 às 13:41h
Capa Crianças não são adultos em miniatura: a ciência por trás do treino

Você já viu uma criança treinando como se fosse atleta profissional?

Correndo até a exaustão, fazendo exercícios intensos, ouvindo cobranças por resultado?

Essa é uma cena cada vez mais comum — e preocupante.

Apesar de ter trabalhado muitos anos no futebol e no futsal profissional, sempre fui apaixonado pelo desenvolvimento de crianças e adolescentes. Porque existe algo que nunca podemos esquecer: o corpo de uma criança está em formação. E isso muda tudo.

Em 2024, tive a oportunidade de iniciar um trabalho específico com crianças e jovens, aplicando anos de estudo e prática, sem deixar minha atuação no Guarani Futsal. Mas antes da prática, veio à pesquisa.

Durante minha especialização em Técnico Desportivo de Futebol e Futsal, avaliei mais de 240 alunos de uma escolinha esportiva. Após os critérios científicos, 110 jovens entre 11 e 14 anos participaram efetivamente do estudo. Os resultados reforçaram algo fundamental: cada fase do desenvolvimento exige estímulos adequados.

Vamos entender isso de forma simples.

Entre 11 e 14 anos, a chamada resistência aeróbia — aquela que permite correr, brincar e jogar por bastante tempo sem “fundir o motor” — evolui de maneira contínua e segura. É uma fase excelente para atividades dinâmicas, jogos e movimentos variados.

Já os treinos muito intensos, que exigem esforço máximo em pouco tempo, são outra história. Eles dependem de um sistema energético que utiliza reservas que a criança ainda não possui em quantidade adequada. Além disso, o organismo infantil tem mais dificuldade para lidar com o acúmulo de substâncias que causam fadiga. Resultado? Cansaço excessivo e risco desnecessário.

Outro ponto importante é a força muscular.

Muita gente acredita que criança não pode treinar força. Isso não é verdade. O que não pode é treinar como adulto.

Quando uma pessoa começa musculação, os primeiros ganhos de força acontecem principalmente por adaptação neural — ou seja, o cérebro aprende a ativar melhor os músculos. E isso também pode acontecer com crianças, desde que o treino seja adequado, com cargas ajustadas, volume controlado e exercícios apropriados.

O problema começa quando copiamos o modelo adulto: aparelhos feitos para corpos já desenvolvidos, sobrecargas exageradas ou metas que não respeitam o estágio biológico do aluno.

E aqui está um ponto decisivo: idade cronológica (anos vividos) não é a mesma coisa que idade biológica. Dois adolescentes de 13 anos podem estar em fases hormonais completamente diferentes. Um pode estar pronto para estímulos mais intensos. O outro, não.

 

Por isso, o trabalho com crianças e jovens precisa ser individualizado. Avaliar, observar, entender o momento de cada um.

O futebol e o futsal, nesse contexto, devem ser ferramentas de desenvolvimento — motor, social e emocional. Não instrumentos de pressão por vitórias precoces ou projeções pessoais de adultos.

No trabalho com crianças, conhecer o esporte é importante. Mas conhecer o desenvolvimento infantil é indispensável.

Antes de formar atletas, precisamos formar pessoas.

E para isso, nunca podemos esquecer:

Crianças não são adultos em miniatura.

Grande abraço!!!