Síndrome do Burnout no esporte, o que é?
Coluna de Pedro Francke
Publicado em 20/02/2023 às 15:14h
Capa Síndrome do Burnout no esporte, o que é?

Esta síndrome esta cada vez mais presente no cotidiano das pessoas, de acordo com uma pesquisa da International Stress Management Association (ISMA), o Brasil tem a segunda população mais estressada do mundo, com 30% das pessoas economicamente ativas sofrendo dessa síndrome do esgotamento profissional.  Ela é um distúrbio emocional com sintomas de exaustão extrema, estresse e esgotamento físico resultante de situações de trabalho desgastante, que demandam muita competitividade ou responsabilidade. Alguns aspectos emocionais e físicos podem ser observados por pessoas que sofrem desta síndrome como maior agressividade, dificuldade de concentração, alterações de humor, ansiedade, depressão, etc. Bem como alguns sintomas físicos como dores de cabeça, sudorese, pressão alta, insônia, distúrbios gastrointestinais entre outros.

O fato de uma pessoa ter um ou alguns destes sintomas não define que esteja passando pela síndrome, porém quando convivemos com estas pessoas precisamos estar atentos para evitar que atinjam este estágio que pode ser muito prejudicial para a vida de quem sofre, acaba se afastando ou interrompendo um processo de desenvolvimento e formação quando falamos de crianças e jovens praticantes de esportes competitivos. Trabalhando com esporte competitivo desde a iniciação até o profissionalismo, já passei por todas as etapas deste processo estudando bastante e encontro em jogadores com muitas falhas de formação, mas algo que pouco temos informações são de crianças e jovens com perfil e potencial para chegar aos estágios finais e que abandonam o processo no decorrer. Muitos por altas pressões em estágios em que deveriam estar desenvolvendo fatores psicomotores, que são esquecidos e menosprezados.

Um exemplo de jogador que abandonou a carreira de sucesso bem antes do previsto foi o atacante Nilmar (Internacional –RS, Corinthians –SP, Lion – França, Santos – SP, Seleção Brasileira, entre outros), que interrompeu sua carreira quando defendia o Santos em 2016 em função da depressão e dos sintomas psicológicos e físicos gerados por ela. Este exemplo é triste, porém quantos se perdem no processo pelas mesmas causas, mesmo estes tendo grande potencial para continuar no esporte profissional.
Vejo muitas vezes na fase de formação uma reprodução do que se faz em idades superiores gerando sobrecargas físicas e psicológicas antes que estejam realmente prontos para isso. As crianças e jovens não são adultos em miniaturas e repetir treinos para idades maiores com menos tempo ou intensidade está longe de ser o correto. Isso se define como especialização precoce, ou seja, treinar estes jovens iniciantes com treinos para adultos.

É muito mais comum do que pensamos ver crianças com rotinas de atletas profissionais, uma preocupação maior pelas vitórias do que pelo desenvolvimento por parte de professores e pais gerando muita pressão, responsáveis nas arquibancadas mandando informações conflitantes para estas crianças e até mesmo ofendendo estas, seus colegas e adversários, treinamentos reproduzidos para idades maiores, ou seja, na fase de desenvolvimento já estão passando por pressões que iriam conhecer em idades maiores sem estarem preparados para isso e poderá fazer com que em todo o processo, estes se sintam pressionados e assim abandonem precocemente. 

Existem momentos que o treinamento de um esporte específico Futsal/ futebol serve para desenvolver os aspectos psicomotores e sociais desses indivíduos e não o contrário onde o foco é treina-los para o rendimento no esporte específico. Isso é uma fórmula onde o resultado é sempre negativo. Vamos pensar em crianças de 7/8 anos jogando em campos em quadras de tamanhos semelhantes aos oficiais e com a mesma regra, eles estarão jogando mais ou correndo mais? Quantas ações irão participar? Qual a sobrecarga gerada no organismo? Com menos ações como passes, finalizações, roubadas estarão desenvolvendo mais capacidades técnicas ou questões físicas desnecessárias para a idade? A pressão do jogo é mais próxima ao profissional (por parte dos jovens, professores e pais) ou próximo ao desenvolvimento que procura no esporte com motivação, prazer e diversão nas idades menores?

Precisamos ser formadores e incentivadores, buscando preparar os jovens esportistas para as pressões futuras e não o contrário. O burnout lembra a estória do “copo de água cheio”, o desenvolvimento esportivo equivocado, rotinas exageradas e pressões desnecessárias vão enchendo o copo até que este transborde e o abandono torna-se inevitável.
Abraço!!!!