Para ser discípulo de Jesus é preciso segui-lo com fidelidade radical
Coluna de Antonio Carlos Rossi Keller
Publicado em 05/09/2025 às 14:10h
Capa Para ser discípulo de Jesus é preciso segui-lo com fidelidade radical

O 23º Domingo do Tempo Comum, no Ano C do ciclo litúrgico, apresenta-nos um chamado forte e desafiador ao discipulado cristão. O tema central gira em torno da exigência de uma adesão total e incondicional a Jesus Cristo. As leituras deste domingo não oferecem um caminho fácil ou cômodo, mas um convite a uma conversão profunda, que exige renúncia, coragem e fidelidade.

Jesus fala de “tomar a cruz” e de “renunciar a tudo o que se tem”, palavras que podem soar duras à sensibilidade contemporânea, acostumada a discursos de conforto e facilidades. No entanto, este é o cerne do Evangelho: o seguimento de Cristo não é um acréscimo à vida, mas uma transformação total dela. Ao verdadeiro discípulo são exigidas prioridades claras, coragem para escolher o bem e a humildade de reconhecer que, sem Cristo, nada podemos realizar. Este domingo, portanto, nos interpela: quem é Jesus para mim? E o que estou disposto a deixar por Ele?

Primeira Leitura: Sabedoria 9,13-18b

O trecho do livro de Sabedoria destaca a fragilidade humana diante do mistério divino. A carne, simbolizando a condição limitada do ser humano, “pesa sobre a alma” e torna difícil compreender os desígnios de Deus. O texto reconhece que, por si só, o homem é incapaz de alcançar a verdade plena e de viver segundo a vontade de Deus.

No entanto, há uma luz de esperança: "só com o teu Espírito" é possível conhecer e seguir os caminhos do Senhor. Esta leitura prepara o terreno para o Evangelho, mostrando que o seguimento de Cristo não depende apenas da força de vontade humana, mas da graça divina. Sem o Espírito Santo, a renúncia e o discipulado se tornam impossíveis. Assim, antes de qualquer esforço, é necessário pedir a iluminação e a força do Alto.

Segunda Leitura: Filemon 9-10.12-17

A carta de São Paulo a Filemon é um belo exemplo de misericórdia, reconciliação e fraternidade cristã. São Paulo intercede por Onésimo, um escravo que fugiu, mas que agora se converteu e deseja voltar. Em vez de impor uma obrigação, Paulo pede com humildade que Filemon o acolha “não como escravo, mas como irmão”.

Esta leitura traz um contraponto poderoso ao tom exigente do Evangelho: o discipulado também se vive na misericórdia, no perdão e na dignidade conferida a todo ser humano em Cristo. O chamado à renúncia não nos torna duros ou insensíveis, mas mais compassivos. Seguir Jesus implica romper com estruturas de opressão e enxergar no outro — mesmo no escravo, mesmo no pecador — um irmão em Cristo.

Evangelho: Lucas 14,25-33

O Evangelho de Lucas apresenta Jesus em um momento de grande convocação: “Grandes multidões o acompanhavam”. Diante disso, Ele não se contenta com adesões superficiais. Pelo contrário, propõe um discipulado radical: “Se alguém vier a mim e não odiar seu pai, sua mãe, sua esposa, seus filhos, seus irmãos, suas irmãs e até a sua própria vida, não pode ser meu discípulo”.

A palavra “odiar” não deve ser entendida literalmente, mas como uma expressão semítica que indica “amar menos em comparação a”. Jesus exige que Ele seja a prioridade absoluta. Em seguida, Ele dá duas parábolas: a do construtor da torre e a do rei que vai à guerra. Ambas ensinam a necessidade de avaliar o custo antes de agir. Ser discípulo não é um impulso emocional, mas uma decisão consciente e responsável.

Por fim, a imagem da cruz e da renúncia a tudo reforça que o seguimento de Cristo envolve entrega total. O sal que perdeu o sabor — símbolo da fé estéril — serve de advertência: sem fidelidade, a missão cristã perde seu sentido.

Indicações Práticas para a Vida Cristã

A mensagem deste domingo pode parecer árdua, mas é profundamente libertadora. Ela nos convida a uma fé autêntica, não de aparência, mas de compromisso real. Aqui estão três indicações práticas para viver este discipulado radical:

  1. Reflita sobre as suas prioridades

Faça um exame de consciência: quem ou o que ocupa o primeiro lugar na sua vida? Dinheiro, carreira, família, conforto? Convide Jesus a ser o centro. Peça-Lhe a graça de reordenar suas prioridades, colocando-o acima de tudo.

  1. Pratique a renúncia cotidiana

A renúncia não precisa ser dramática. Pode começar com pequenos gestos: desapego de bens materiais, tempo dedicado à oração em vez do lazer, escolhas éticas mesmo quando são difíceis. Cada renúncia voluntária fortalece a liberdade interior e a fidelidade a Cristo.

  1. Viva a misericórdia como sinal de discipulado
  2. Como São Paulo com Onésimo, procure perdoar, acolher e restaurar relações feridas. O verdadeiro discípulo não é apenas alguém que renuncia, mas alguém que ama com o coração de Cristo. A misericórdia é a prova concreta do seguimento.

Este domingo não nos oferece um caminho de fácil adesão, mas um convite à autenticidade. Seguir Jesus exige tudo — mas, em troca, Ele dá tudo: vida plena, sentido profundo e amor eterno. Recebendo a Santa Comunhão, não nos esqueçamos de dizer, hoje e sempre a Jesus: “Senhor, aqui estou. Toma minha vida. Quero ser teu discípulo de verdade.