Prezados leitores deste nosso prestigiado jornal, como é de conhecimento de todos, no mês de setembro de cada ano os Gaúchos comemoram a revolução Farroupilha, considerado o maior conflito armado ocorrido em território brasileiro entre os anos de 1835 a 1845.
Esta revolução teve uma participação fundamental de um grupo de pessoas que, na época, jamais imaginariam que seriam tão importantes no conflito, tanto no desenrolar quanto na conclusão. São os lanceiros negros, agrupamento do exército farroupilha formado por escravos convocados para lutar ao lado dos revoltosos, tendo desempenhado um importante papel durante os 10 anos da Revolução Farroupilha. Dada a essa contribuição tão marcante, trouxemos aqui e nas próximas colunas alguns destaques dessa contribuição.
(...) Em ofício a Chico Pedro, datado de 15 de janeiro de 1845, Caxias refere que os farrapos “pediram-me, por intermédio do Fontoura, licença para se reunirem todos em um ponto que eu quisesse marcar, a fim de aí deliberarem a sua dispersão e a entrega dos escravos.” Caxias designou a Estância das Cunhas, no Ponche Verde, como o lugar onde ele receberia os negros farrapos.
De acordo com Alfredo Varela, Canabarro atua em completa cumplicidade com Caxias que dirá: “David Canabarro [...] é hoje o chefe em cuja boa-fé mais confio, e ele me promete ser o seu primeiro passo, logo que chegue ao ponto marcado, mandar entregar todos os escravos que ainda conserva em armas, e que formam sua principal força”. Segundo Varela:
Revestido ainda com as insígnias do generalato emancipador, S. Exa. descera ao que soía fazer por dinheiro um desses oficiosos auxiliares da autoridade e entregara ao marechal-presidente os pretos que mais de nove anos batalharam consigo! Quer dizer, concordava em que fossem reduzidos a sua ignóbil condição primitiva, os libertos, cujo fabuloso devotamento, cuja fera incontinência na arena guerreira, encheram de assombro a Garibaldi! [...] Graças à fraqueza do antes pujantíssimo David, os maravilhosos lanceiros, os estupendos caçadores, aríete e baluarte sem iguais da liberdade americana, passariam, da guarda e defesa do tricolor estandarte até aí imaculado, à senzala e ao eito!
Com uma humilhação que até hoje abalaria a almas pundonorosas ou sensíveis, passariam, das planícies abertas, ao fechado recinto da imperial fazenda de Sta. Cruz, no caráter, não mais de escravos de seus antigos senhores, mas da Nação brasileira, que a aqueles entregaria o valor dos mesmos, para que continuasse intangível o sacro direito de propriedade! (VARELA, 1933, pp. 297-298).
