Prezados leitores deste nosso prestigiado jornal, como é de conhecimento de todos, no mês de setembro de cada ano os Gaúchos comemoram a revolução Farroupilha, considerado o maior conflito armado ocorrido em território brasileiro entre os anos de 1835 a 1845.
Esta revolução teve uma participação fundamental de um grupo de pessoas que, na época, jamais imaginariam que seriam tão importantes no conflito, tanto no desenrolar quanto na conclusão. São os lanceiros negros, agrupamento do exército farroupilha formado por escravos convocados para lutar ao lado dos revoltosos, tendo desempenhado um importante papel durante os 10 anos da Revolução Farroupilha. Dada a essa contribuição tão marcante, trouxemos aqui e nas próximas colunas alguns destaques dessa contribuição.
(...). Analisando a justificativa apresentada por Alfredo Ferreira Rodrigues para colocar em dúvida a referida carta do então Barão de Caxias a Chico Pedro, o autor da coletânea de ofícios de Caxias, publicada em 1950, pela Imprensa Militar, no Rio de Janeiro, às pp. 147-148, afirma em nota apensa: “a defesa de A. F. Rodrigues de Canabarro me parece fraca. Julgo o documento legítimo, pois Francisco Pedro não teria nenhuma conveniência em divulgar um documento que lhe tiraria todas as honras de uma estrondosa vitória, como foi julgada a surpresa de Porongos” (WIEDERSPAHN, 1980, p. 79).
Da mesma forma, o Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul publicou a íntegra da carta de Caxias a Chico Pedro, sem colocar em dúvida, em qualquer momento, a sua autenticidade. Quanto a nós, pudemos ter em mãos e examinar pessoalmente o referido documento, que está guardada no Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, Coleção Varela, Caixa 6, Maço 22, documento CV-3730. O registro fotográfico do mesmo também pode ser visto em anexo nesta publicação, assim como a sua transcrição, de acordo com o AHRS.
Por tudo isso, apesar da controvérsia histórica em relação à “traição de Porongos”, a esmagadora maioria das evidências são no sentido da sua confirmação. Poucos dias depois, ocorreu novo revés das armas farroupilhas: Teixeira Nunes e os remanescentes dos seus Lanceiros Negros foram enviados por Canabarro para executar uma ação altamente temerária (sobre a qual, pelo alto risco, também pairam suspeitas), na retaguarda inimiga:
Devia arrecadar impostos, e fornecer do necessário, a tropa, no distrito do Arroio Grande. Também devia, se possível, cair de chofre no imperial depósito de solípedes, de além do S. Gonçalo. Teixeira, ainda que presságio, houve-se com destreza. [...] Notando estar agora inteiramente cortado do exército, buscou reunir as suas partidas volantes para distanciar-se [...] Efetuada a incorporação, e já cobradas as taxas na aldeia supra e costa do Chasqueiro, movia-se o contingente revolucionário em franco recuo para noroeste, quando a sua desfortuna o pôs nas unhas de um dos mais bravios filhotes do possante condor, ávido de substância farrapa, que voava e revoava, nesse departamento da República.
Acampava, a 26, perto de Canudos, e Fidelis, o indicado subalterno e bom discípulo, caiu de improviso sobre os retirantes. [...] Assistiu-se aí à exata miniatura do que se vira em Porongos: total e ruinoso destroço. Sucumbiram muitos sob o ferro legalista, divulgando a apologia dos Abreus que, entre os mortos na surpresa, se contara o nobre Teixeira, ilustre entre os mais ilustres pugilistas do áureo decênio. Mais uma inverdade escandalosa, disseminada pela turba dos vencedores. É falso! “Prisioneiro, foi assassinado” (VARELA, 1933, pp. 258-259). (...).
