A Contribuição dos Lanceiros Negros na Revolução Farroupilha - 19*
Coluna de Samba Sané
Publicado em 19/01/2023 às 15:41h
Capa A Contribuição dos Lanceiros Negros na Revolução Farroupilha - 19*

Prezados leitores deste nosso prestigiado jornal, como é de conhecimento de todos, no mês de setembro de cada ano os Gaúchos comemoram a revolução Farroupilha, considerado o maior conflito armado ocorrido em território brasileiro entre os anos de 1835 a 1845.

Esta revolução teve uma participação fundamental de um grupo de pessoas que, na época, jamais imaginariam que seriam tão importantes no conflito, tanto no desenrolar quanto na conclusão. São os lanceiros negros, agrupamento do exército farroupilha formado por escravos convocados para lutar ao lado dos revoltosos, tendo desempenhado um importante papel durante os 10 anos da Revolução Farroupilha. Dada a essa contribuição tão marcante, trouxemos aqui e nas próximas colunas alguns destaques dessa contribuição.

(...) Ivo Caggiani – autor que discorda da opinião de que David Canabarro urdiu uma traição no combate de Porongos – cita trabalho de Alfredo Ferreira Rodrigues onde este reconhece que Canabarro desarmou os lanceiros negros na noite que antecedeu o ataque, apresentando explicações extremamente fantasiosas para justificar tão estranho comportamento de alguém que, mesmo informado da aproximação do Moringue, preferiu não precaver-se e ainda retirou as armas dos lanceiros negros. 

Também a carta secreta de Caxias a Chico Pedro, tramando o massacre, é explicada por Ferreira Rodrigues como uma artimanha de Chico Pedro para desmoralizar Canabarro e causar a cizânia entre os farroupilhas. Mas, o próprio Ferreira não esconde a sua perplexidade e pergunta: “Por que Canabarro nunca se defendeu, [...] desmentindo esse documento, contentando-se em dizer: - O tempo me há de justificar! Por que Caxias, depois da paz, nunca o defendeu, desmentindo a intriga de Chico Pedro? Por quê?” (CAGGIANI, 1992, p. 245).

Havendo tempos antes, Chico Pedro aprisionando um oficial de Canabarro, este pediu-lhe que não o deportasse, poupando-lhe os trabalhos e misérias que iria sofrer. Chico Pedro disse que só o soltaria com a condição de ir trabalhar a favor do governo com a infantaria republicana, onde encontraria companheiros. Perguntando-lhe o prisioneiro quem eram eles, Chico Pedro disselhe que isso era a chave do segredo, mas que fosse trabalhando, que eles haviam de aparecer. 

O oficial recusou indignado. Chico Pedro, fingindo-se comovido com as suas súplicas, soltou-o depois, sem lhe falar mais nisso. O oficial, chegando ao acampamento republicano relatou a proposta ao General Netto, que a comunicou a Canabarro. Este, pretextando a necessidade de substituir o cartuchame velho, mandou recolhê-lo, dizendo que distribuiria outro, demorando porem a entrega. (CAGGIANI, 1992, pp. 244-245).

Evidentemente, é pouco plausível que Caxias tivesse qualquer interesse em desmoralizar David Canabarro, o líder farrapo em quem mais confiava e com quem contava para convencer os demais chefes a aceitarem a paz. Quanto a Chico Pedro, seria a pessoa menos interessada em divulgar uma versão que lhe tirava todos os méritos de uma grande vitória como a de Porongos. (...).
 


Elaborado a partir do Livro do Deputado Estadual Raul Carion– Os Lanceiros Negros na Revolução Farroupilha.