Dar a Deus o que é de Deus
Coluna de Dom Antonio Carlos Rossi Keller
Publicado em 23/10/2023 às 15:31h
Capa Dar a Deus o que é de Deus

A passagem do Evangelho deste Domingo (Mateus 22,15-21) nos oferece uma visão intrigante da tentativa dos fariseus de colocar Jesus em contradição, mediante perguntas perspicazes, verdadeiras armadilhas, para poderem depois acusarem Jesus de algo. Não havia nenhuma intenção de aprender algo de Jesus. A pergunta sobre o pagar ou não imposto ao imperador era um dilema ardiloso, no qual qualquer resposta serviria para prejudicar Jesus. Se Ele dissesse que não era lícito pagar impostos aos romanos, poderia ser denunciado como um agitador. Se, por outro lado, afirmasse que deveriam pagar, provocaria a ira dos israelitas, pois pareceria aprovar a opressão de sua pátria.

No entanto, Jesus enfrenta essa armadilha com uma elegância divina, oferecendo uma resposta que transcende o momento e ressoa até os nossos dias. 

A pergunta permanece relevante para a Igreja e, por extensão, para todos nós. E poderia ser também apresentada por meio de outro dilema: é permitido evangelizar, apresentar a fé cristã, honrar a Deus através da fidelidade a suas Leis e Mandamentos, oferecendo um caminho diferente do que normalmente é proposto pelo mundo e, ao mesmo tempo, respeitar a liberdade de escolha de cada indivíduo? Podemos dar a Deus o que é dele, dentro da sociedade civil?

Curiosamente, em uma sociedade que pretende se apresentar como democrática e evoluída como a nossa, que levanta essas questões e muitas vezes vê a evangelização como uma ameaça à liberdade e à cultura, nós cristãos somos constantemente bombardeados com incompreensões e perseguições, já que a cultura dominante promove valores questionáveis, leis que ofendem a Deus, nocivas e imorais, minando as verdadeiras liberdades humanas. A sociedade atual encaminha-se para transformar em bárbaro e desumano o nosso mundo. 

A missão da Igreja, no entanto, não é a do embate, do conflito, mas é sempre um convite fraterno, um contágio de amor que permite a cada pessoa manter a liberdade de aceitar ou rejeitar. Apesar de tantas contradições, somos chamados a continuar fazendo essa proposta amigável, pois desejamos a felicidade tanto temporal quanto eterna para cada indivíduo.

A crise de valores que assola o mundo atualmente nos faz perceber que, sem a luz do Evangelho, a vida perde seu sabor e o seu sentido. Falta-nos a verdadeira segurança, a autêntica alegria. Hoje, a vida de tantos se resume a meras sensações que, embora possam ser agradáveis no início, acabam por levar a uma infelicidade sem fim, e a sociedade a um autêntico caos.

Jesus nos ensina a cumprir mais do que é simplesmente de justiça, a separar o que é de César e o que é de Deus. Devemos dar a César o que é de César, o que significa cumprir nossos deveres civis, profissionais e de estado de vida com dedicação e honestidade. Devemos oferecer nossas habilidades para o bem da sociedade civil. É nossa missão no meio do mundo, transformá-lo e torná-lo agradável a Deus e à humanidade. Temos o dever e devemos exigir o devido respeito ao fato de não partilharmos a visão permissiva do mundo de hoje. 

E, da mesma forma, dar a Deus o que é de Deus, o que implica empenhar nossa vida para ser orientada por sua Lei, concentrando nossas energias humanas e espirituais para a missão de evangelização e para responder ao chamado pessoal de Deus em nossas vidas, seja ele para o sacerdócio, a vida religiosa, a vida consagrada, ou para ser fiel cristão leigo no mundo.

Assim, ao seguir o exemplo de Jesus, podemos encontrar o equilíbrio entre nossas obrigações terrenas e nossa devoção espiritual, vivendo plenamente a mensagem do Evangelho em nossa vida cotidiana.