Uma pesquisa global recente acendeu um sinal de alerta que não podemos ignorar: 81% das crianças e adolescentes no mundo não atingem as recomendações mínimas de atividade física (segundo a OMS seriam 60 minutos diários de atividades moderadas ou intensas). O que mais assusta não é apenas o número, mas o tempo: esse declínio começa no final da infância, muito antes da adolescência. Estamos assistindo à primeira geração que está "aposentando" o corpo antes mesmo de ele estar pronto.
O desenvolvimento humano é um processo psicomotor contínuo. Gatinhar, cair, levantar, correr e saltar não são apenas exercícios; são a construção do nosso vocabulário motor. Cada desafio físico superado na infância escreve uma "linha" no código do nosso cérebro. Atualmente, o que vemos é um analfabetismo funcional: adolescentes que possuem menos coordenação motora do que crianças de 8 anos de gerações passadas.
Trabalhando há muitos anos com esporte competitivo e formação, o diagnóstico é assustador: hoje vemos adolescentes que têm dificuldade em realizar o básico da sobrevivência humana, que é saber caminhar com eficiência. Se o jovem não domina o caminhar, como podemos exigir que ele corra com técnica, mude de direção ou jogue em alto nível? Vi isso na prática: o jovem que, ao tentar bater um pênalti, chuta a própria perna e se machuca por pura falta de consciência corporal.
Diante desse cenário, surge a pergunta: os jovens hoje estão sem talento? Precisamos entender que o talento não é uma mágica. Na ciência, falamos em responders (aqueles que respondem rápido ao treino) e non-responders (os que demoram mais). Mas aqui entra a chave: o talento é o crescimento psicomotor estimulado em todas as fases. Um jovem "dito sem talento" ou um non-responder que recebe estímulos constantes e corretos pode desenvolver-se muito mais do que um responder talentoso que ficou parado. Sem o estímulo, o potencial permanece trancado, independente da genética.
Quando falo de psicomotor, quero tirar o foco total apenas do corpo. A mente também é desenvolvida nesse processo. A incapacidade de lidar com o corpo interfere diretamente na saúde mental. A cena que presenciei de um adolescente que cai em prantos por perder um jogo, a ponto de os pais precisarem entrar em quadra para resgatá-lo, revela jogadores muito abaixo do necessário nas questões cognitivas e psíquicas. Falta a "casca" emocional para suportar a dificuldade e lutar para superar o erro.
Ao protegermos as crianças de todos os desafios, estamos retirando delas a oportunidade de se tornarem indivíduos fortes. O cognitivo precisa do desafio motor para aprender a resiliência. Quem não aprende a lidar com um joelho ralado ou um drible sofrido na infância, terá dificuldades imensas para gerir as frustrações da vida adulta.
Isso não apenas em atividades físicas, mas o suporte de pais a qualquer dificuldade dos filhos, não os deixando entender e superar elas, os tornam com mais fragilidade e sem competências para enfrentar dificuldades e frustrações futuras. O difícil, também desenvolve o ser, sendo no esporte ou na vida.
Estamos criando jovens que não conseguem aprofundar-se em nada: nem nos estudos, nem nos esportes, nem nas relações. A falta de base motora gera insegurança física, e a insegurança física gera fragilidade emocional. O indivíduo completo é aquele que foi estimulado a cair e, principalmente, a entender como se levanta sozinho, no esporte ou na vida.
O treino equilibrado começa na base, estimulando o vocabulário motor e a resiliência mental. Precisamos devolver às nossas crianças o direito de se desafiarem. Caso contrário, continuaremos a ver atletas de vidro em um mundo que exige, cada vez mais, estrutura de aço.
Vamos nos curar hoje de doenças que não temos ainda. Abraço!!!!!
