O FUTEBOL E O COMPORTAMENTO – ONDE O "SER" VENCE O "ESTAR"
Artigo de Pedro Francke
Publicado em 30/03/2026 às 14:52h
Capa O FUTEBOL E O COMPORTAMENTO – ONDE O "SER" VENCE O "ESTAR"

No futebol de alto rendimento, é comum confundirmos o cenário com o protagonista. O desejo de um treinador ou preparador físico por títulos é legítimo e simbólico; a taça registra a competência técnica e a gestão de um grupo. No entanto, o "Grande Prêmio" não é o metal dourado, mas o legado humano. A função real do profissional do esporte, não é apenas lapidar o jogador, mas formar o indivíduo para que ele suporte o peso da própria carreira. Essa é a minha visão, apesar de trabalhar com o alto rendimento, lutar por títulos e conquistas, antes disso esta um ser humano (jogador) com sua individualidade, valores e comprometimento com o processo.

Podemos oferecer o que há de melhor em estímulos físicos, refinamento técnico, estratégia tática e suporte psicológico. Porém, existe um critério soberano que define o sucesso ou o fracasso: o comportamento. O ambiente e as ferramentas são apenas meios; o que as une e forja o caráter do atleta é como ele se posiciona diante delas. O treino pode ter em média 2 horas, mas o destino do atleta é decidido no que chamamos de treinamento invisível: as outras 22 horas voltadas para a sua recuperação física e psíquica, onde ele lida com as vivências, com as renúncias e com a disciplina necessária para sustentar a elite.

O futebol competitivo gera um grande deslumbre. Jogadores começam a ter acesso a um mundo diferente, e isso nem sempre é bom, pois afeta muitas vezes sua conduta. Esse cenário é perigoso: nem tudo que chega de forma fácil e prazerosa é o ideal no momento, e o comportamento que o atleta terá diante dessas facilidades terá grande participação na longevidade de sua carreira. Sabemos que o futebol é imediatista e exige resultados hoje, mas esta é uma visão de médio a longo prazo; é ela que vai definir a conduta, a longevidade e o nível real conquistado pelo jogador em sua trajetória.

Esta é uma lição que serve para a base, para o profissional e para a vida. É preciso entender a diferença vital entre estar e ser. No futebol, o status é volátil. Um atleta pode estar na Seleção Brasileira ou estar em um clube gigante, mas isso é uma situação momentânea. A transferência de um clube mediano para um grande não torna o indivíduo um jogador de exceção automaticamente. Por mais talento que ele possua, se não houver o crescimento interno e a afirmação pelo comportamento, a queda é matemática: certamente o seu próximo clube será menor que o atual.

Muitos chegam ao topo por um lampejo de talento, mas apenas os que possuem uma identidade de elite — o "ser" — conseguem manter a conduta que a manutenção do topo exige. O clube grande oferece a estrutura e o suporte, mas não garante a formação do homem. Muitas vezes, a escassez de um clube menor gera uma autonomia e uma capacidade de decisão que o luxo anestesia. O que realmente importa não é o tamanho da vitrine, mas o repertório de soluções e a lucidez que o atleta desenvolveu para resolver problemas dentro e fora de campo, independente das ferramentas que tenha à disposição.

Em última análise, o futebol é um laboratório da vida. O jogador precisa compreender que o uniforme que ele veste hoje é um empréstimo do tempo. O que fica, e o que define sua trajetória, é a consistência do seu comportamento frente aos desafios.

Ganhar títulos é o registro do trabalho, mas formar um indivíduo que "é" antes de "estar" é a única vitória que o tempo não apaga. Sem o padrão de conduta necessário para a permanência, o topo será apenas uma visita rápida, e não a sua morada definitiva.

Abraço !!!!