O que motiva um artista marcial?
Publicado em 21/12/2022 às 12:27h

Seguidamente meus alunos me perguntam como e por que comecei com as artes marcais, hoje, irei lhes contar. Iniciei nas artes marciais por intermédio dos meus estudos em filosofia, mais especificamente os escritos do filósofo René Descartes, o qual aborda a dualidade da existência do ser humano, a relação corpo e mente e como esses dois opostos interagem. Segundo Descartes, somente podemos conhecer a mente através do corpo e o corpo através da mente, acho isso fascinante e vi na arte marcial a possibilidade de experienciar esses opostos de forma bastante intensa na prática e nas competições.


Logo quando iniciei os treinos, me surgiu uma grande e instigantes questão: O que motiva dois indivíduos a subir em uma “jaula”, em um ringue melhor dizendo, se colocarem propositalmente e racionalmente em posição de combate e se agredirem fisicamente até que um deles saia vencedor? Isso me parecia algo de natureza primitiva e irracional, eu sei que muitos de vocês também já pensaram assim, talvez ainda pensem. Por que esses indivíduos aceitam se colocarem em perigo? Aceitam a dor e suas diferentes formas? O sofrimento da preparação? A violência e agressividade do esporte? Pois bem, vou lhes ajudar a entender esse contexto todo.
Primeiramente, é importante lembrar que a violência e a agressividade contidas nos esportes de combate são direcionadas a atividade marcial, como explicamos detalhadamente na edição anterior. Esclarecido isso, entendemos que um artista marcial aceita de bom grado essa difícil situação em que ele mesmo se coloca pela busca de sentido, sim, isso mesmo, em busca de sentido para a sua existência. Vejam bem, meus amigos, toda arte, em suas diversas formas, seja ela qual for, é uma expressão da existência do artista. Um artista marcial também é como a própria palavra já o diz: “Um artista”; assim, ele expressa sua existência no momento do combate, nessa hora ele demonstra o seu ser, é uma situação em que ele sente e demonstra que realmente existe no mundo, a sua existência ganha sentido de ser, e isso é algo fascinante e inebriador.


Agora fica mais fácil compreendermos o porquê o lutador aceita a dor e a violência do esporte, justamente pela experiencia de sentir e expressar de forma intensa a sua própria existência. Assim o sacrifício físico se torna pequeno comparado a essa experiencia vivenciada.


Importante destacarmos que a expressão da arte e da existência que aqui nos referimos não se trata do âmbito do gênero místico, pelo contrário, segundo Descartes a certeza da nossa existência é algo de difícil conclusão, pois somos constantemente enganados pelos nossos sentidos. Para o filósofo, somente o pensar nos dá a certeza do existir, por isso de sua famosa frase: “Penso, logo existo”. Ainda, segundo o autor: “A eficácia das artes tem por condição a verdade do conhecimento, observando mesmo que o desenvolvimento de uma arte rudimentar é o sinal de que suas regras utilizam inconscientemente verdades anteriores”.